O colapso da Ponte Morandi sob a ótica da Engenharia de Segurança Proativa

 

O colapso da Ponte Morandi sob a ótica da Engenharia de Segurança Proativa

Resumo

 O colapso parcial da Ponte Morandi, em 14 de agosto de 2018, em Gênova, resultou em 43 mortes e revelou fragilidades profundas em projeto, manutenção, governança e regulação de infraestrutura crítica. Investigações ministeriais identificaram corrosão avançada em elementos internos de pré‑compressão, insuficiência de medidas preventivas e inadequação do controle por inspeções. A partir da Engenharia da Segurança Proativa de Washington Ramos Barbosa e utilizando as lentes da Abordagem Sociotécnica Estruturada, da Gestão Dinâmica de Riscos e da Visão Sistêmica da Segurança integrada às demais áreas organizacionais, o acidente é interpretado como resultado de decisões organizacionais que permitiram migração silenciosa ao limite de segurança. Conclui‑se que prevenir acidentes maiores exige antecipação, decisões conservadoras diante da incerteza, independência técnica e integração sistêmica entre segurança, operação, manutenção e regulação.

Introdução

 A Ponte Morandi, inaugurada em 1967, adotou solução estrutural inovadora: estais em concreto protendido com cabos metálicos encapsulados. Ao longo das décadas, essa solução gerou fragilidade latente, pois elementos críticos não eram observáveis diretamente. O colapso em 2018 não se explica apenas por fatores físicos imediatos; ele emerge de um processo contínuo de degradação e de decisões que deixaram de tratar sinais de risco como ameaças estratégicas.

 A Comissão Investigativa do Ministério das Infraestruturas e Transportes da Itália divulgou análise técnica indicando que a causa principal do colapso não residia apenas na ruptura de um ou mais estais, mas em outros elementos estruturais seriamente comprometidos, condicionados pelo estado avançado de corrosão dos cabos internos de pré‑compressão. Um resumo técnico reportou que numerosos cabos de aço estavam trançados ou fortemente oxidados, com redução avançada da seção, e descreveu um mecanismo de colapso provável que começa na parte do tabuleiro próxima ao pilar 9, se propaga e leva ao colapso subsequente de trechos adjacentes

Este artigo expande essa análise, integrando os modelos conceituais referidos para oferecer visão sistêmica e proativa útil a engenheiros, gestores e reguladores.

Análise

1. Abordagem Sociotécnica Estruturada

A Abordagem Sociotécnica Estruturada destaca que acidentes em sistemas complexos decorrem da interação entre componentes técnicos e sociais, e que falhas latentes se manifestam quando decisões organizacionais permitem operação junto a vulnerabilidades.

* Estrutura técnica: a solução de cabos encapsulados tornou a ponte dependente de proteção de longo prazo e inspeções especializadas; sua deterioração ficou oculta.

* Processos sociais e organizacionais: inspeções majoritariamente visuais, intervenções parciais e continuidade de tráfego mesmo diante de degradação avançada indicam normalização do desvio.

* Interdependência: elementos físicos deteriorados, decisões de manutenção e priorização de operação se reforçaram mutuamente, conformando um sistema sociotécnico que migrou a zonas de alto risco.

Nesse quadro, o acidente não é uma falha técnica isolada nem erro individual; é consequência de um sistema no qual escolhas distribuídas no tempo criaram condições para o colapso. A Abordagem Sociotécnica Estruturada orienta a identificar como tecnologia, normas, práticas e cultura organizacional se combinam para produzir vulnerabilidades.

2. Gestão Dinâmica de Riscos

A Gestão Dinâmica de Riscos enfatiza que riscos mudam com o tempo e que é necessário monitorar indicadores, atualizar modelos de risco e tomar decisões antes que o sistema atinja limiares críticos.

No caso da Morandi:

* Indicadores de risco: deterioração do concreto, corrosão interna e perda de seção dos cabos de aço transçados, sinalizados por inspeções e análises, mas sem integração em modelo preditivo robusto.

* Evolução temporal: a informação sobre degradação existia; todavia, não houve transição para ações decisivas, como restrição de tráfego ou intervenções estruturais abrangentes.

* Decisão em contexto de incerteza: frente a incerteza quantitativa sobre segurança estrutural, a operação permaneceu normal, evidenciando falha no uso dinâmico de risco para priorizar segurança.

A Gestão Dinâmica de Riscos recomenda processos contínuos de coleta, análise e resposta rápida. A omissão em adotar medidas conservadoras mostra que o sistema não converteu conhecimento técnico em decisões de controle eficientes, o que, em termos de risco, é tão grave quanto desconhecer o risco.

3. Visão Sistêmica da Segurança com as outras áreas da Organização

A Visão Sistêmica da Segurança sublinha que segurança não é função isolada; ela deve se integrar com operação, manutenção, engenharia, finanças e regulação, formando um sistema coerente em torno da prevenção.

* Integração insuficiente: evidências indicam que a concessionária possuía dados sobre degradação e incerteza, mas não atuou em convergência com órgãos reguladores nem com processos internos para limitar operação ou priorizar projetos corretivos.

* Cultura e governança: o processo decisório favoreceu continuidade operacional sobre antecipação de falhas; segurança foi tratada como atributo pós‑inspeção, não como critério estratégico para decisões de alto impacto.

* Feedback e aprendizado: um sistema sistêmico deveria capturar sinais fracos e transformá‑los em mudanças de procedimento, recursos e prioridades. A falta desse loop demonstra fragilidade organizacional.

A visão sistêmica mostra que a segurança emergente da organização depende de comunicação eficaz entre áreas, independência técnica, apoio institucional e disposição para ações conservadoras. O colapso evidencia desarticulação entre conhecimento técnico, gestão e regulação.

Integração com a Engenharia da Segurança Proativa

A Engenharia da Segurança Proativa, formulada por Washington Ramos Barbosa, oferece referencial para entender o que aconteceu antes do colapso físico. Segundo esse arcabouço, acidentes não nascem no momento da falha técnica, mas nas decisões que permitem que sistemas migrem silenciosamente para zonas de maior vulnerabilidade. Em estruturas com fragilidades latentes e baixa observabilidade, é essencial que a gestão:

 1. Identifique e monitore fragilidades latentes de forma sistemática.

2. Antecipe cenários de falha, transformando sinais fracos em critérios decisórios.

3. Adote decisões conservadoras diante de incertezas elevadas.

4. Assegure independência técnica no monitoramento e na recomendação de ações.

No caso da Morandi, a falta dessa agenda proativa permitiu manter a operação sem medidas restritivas adequadas, evitar intervenções estruturais profundas e operar com modelo de controle incapaz de estimar a segurança contra colapso. O resultado foi um sistema que, apesar de conhecedor da degradação, escolheu reação tardia em vez de antecipação.

Lições centrais

1. Acidentes maiores se formam no cotidiano organizacional. A estrutura física falha quando a gestão deixa de atuar diante de fragilidades conhecidas.

2. Inspeções visuais não bastam em sistemas com elementos críticos não observáveis. É preciso monitoramento avançado e cenários de falha integrados.

3. Decisão conservadora é ato de prevenção. O custo de restrições e intervenções antecipadas é inferior ao custo humano e material do colapso.

4. Segurança é propriedade emergente de um sistema sociotécnico, resultado da interação entre tecnologia, organização, regulação e cultura.

5. Referenciais proativos, como os de Barbosa, oferecem quadro teórico e ético para gerir riscos antes que se manifestem.

Conclusão

O colapso da Ponte Morandi não foi inevitável; foi fim de um processo de perda de controle da segurança, construído por decisões e práticas organizacionais que deixaram fragilidades latentes se tornarem críticas.

A integração dos modelos analisados mostra que:

* A Abordagem Sociotécnica demonstra que a falha é produto de interações entre técnica, organização e cultura, não apenas de um ponto de falha estrutural.

* A Gestão Dinâmica de Riscos exige monitorar e reagir de forma proativa; não basta acumular conhecimento técnico sem traduzi‑lo em decisões conservadoras.

* A Visão Sistêmica integrada reforça que segurança deve estar alinhada a todas as áreas, com independência técnica e capacidade de antever consequências antes do desastre.

Sob a perspectiva da Engenharia da Segurança Proativa, a lição central é que acidentes maiores se evitam decidindo antes. Sistemas críticos, como pontes, precisam de políticas de antecipação, monitoramento avançado, restrições quando necessário e comunicação transparente. A falta desses elementos transformou a Morandi em tragédia, lembrando que a segurança é dinâmica, construída por escolhas cotidianas e organizacionais, e não atributo fixo garantido apenas por inspeções visuais.


Daniel Moraes Lotto é profissional com mais de 25 anos de experiência em engenharia de manutenção, automação industrial e gestão de projetos, atuando em empresas de grande porte dos setores automotivo, industrial e de infraestrutura. Ao longo de sua carreira, consolidou expertise na implantação de normas regulamentadoras como a NR12, em metodologias de produtividade (TPM, RCM, Lean, Six Sigma) e em projetos de transferência industrial de alta complexidade. Possui formação em Tecnolgia de Automação Industrial pela Fatec de São Bernardo do Campo e Gerenciamento de Projetos pelo Senac São Paulo, além de dezenas de cursos de especialização em suas áreas de atuação.

Prof. Eng. Washington Barbosa, DSc pela COPPE/UFRJ, com atuação profissional desde 1984 em organizações de diferentes setores, nas funções de gestão, técnica e operacional. Protagonista no aprimoramento das operações e da segurança organizacional por meio das Tecnologias da Engenharia da Segurança Proativa (ESP) e Times de Aprimoramento das Operações e Segurança nas Organizações (TAOS)

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