O risco está no sistema — ou na forma como o sistema se observa?

 


O risco está no sistema — ou na forma como o sistema se observa?


Por Victor Nazareth


Nas organizações, falamos de risco como se ele fosse uma propriedade do sistema. Algo que pode ser identificado, calculado e controlado.

Mas o risco realmente está no sistema — ou na forma como o sistema aprende a enxergá-lo?

Talvez possamos explorar essa pergunta observando como diferentes atores percebem uma mesma situação.

Imagine uma mesma decisão sendo observada dentro de uma organização.

Um gerente de operações, que acompanha aquela atividade há anos. Para ele, o processo é familiar. Os riscos existem, mas são conhecidos e administráveis — parte da rotina e, muitas vezes, inerentes à própria entrega de resultados.

Agora imagine um auditor, olhando para essa mesma operação pela primeira vez. Ele talvez perceba vulnerabilidades ou improvisações que, para quem vive o processo diariamente, já se tornaram naturais — e até necessárias.

Há ainda um terceiro olhar: um executivo distante da operação, que acompanha a atividade principalmente por meio de indicadores e relatórios.

Para ele, tudo pode parecer relativamente estável — afinal, os números sugerem controle.

A operação é a mesma.

Ainda assim, o risco parece diferente.

Três atores. A mesma atividade. Três interpretações possíveis.

O que explica essa diferença?

Talvez o risco não esteja apenas no sistema. Talvez ele também esteja na forma como o sistema se observa.

Cada ator interpreta o que acontece a partir de suas experiências, expectativas, relações e pressupostos acumulados ao longo da carreira. Aos poucos, esses elementos formam aquilo que poderíamos chamar de uma visão de mundo — um quadro de referência que orienta o modo como percebemos e interpretamos as situações.

É através desse filtro que identificamos ameaças, avaliamos perigos e tomamos decisões.

Esse quadro de referência tem uma característica interessante: ele tende a se reforçar ao longo do tempo.

Com frequência, percebemos com mais facilidade aquilo que confirma nossas expectativas e temos mais dificuldade em reconhecer sinais que apontam em outra direção. Não necessariamente por escolha deliberada, mas porque nossa percepção também é influenciada pelo contexto social em que estamos

inseridos: basta ver quem é recompensado, promovido e destacado.

Talvez por isso, muitas vezes, encontremos exatamente aquilo que esperamos encontrar.

Em situações corriqueiras, onde os perigos são visíveis e imediatos, essas diferenças de interpretação já aparecem.

Mas o desafio parece se ampliar quando entramos no território da incerteza — quando o risco depende de múltiplas interações, condições dinâmicas e relações complexas, como acontece em muitos sistemas organizacionais.

Nesses contextos, o risco deixa de ser algo claramente visível no processo ou no equipamento.

Ele passa a depender, cada vez mais, de como interpretamos o que está acontecendo.

Talvez seja por isso que algumas organizações encontrem dificuldades ao tratar o risco apenas como uma questão técnica — algo que pode ser completamente identificado, calculado e controlado.

Antes de qualquer estudo formal, o risco precisa ser explorado à luz das diferentes linguagens organizacionais: gestores, auditores, operadores, finanças, jurídico, entre outros.

E essas linguagens são inevitavelmente influenciadas pelas formas como as pessoas, em diferentes níveis da organização, socialmente constroem significado sobre aquilo que fazem.

Talvez, então, uma pergunta relevante para organizações que operam sistemas complexos não seja apenas:

“Quais são os riscos?”

Mas também:

“Como diferentes áreas da organização estão enxergando — e comunicando — esses riscos?”

Porque, em muitos casos, o risco não pertence apenas ao sistema.

Ele também pode estar na forma como o próprio sistema aprende a enxergá-lo — ou a não enxergá-lo.

E aquilo que uma organização aprende a NÃO ver pode ser exatamente o que mais a ameaça.


Referências

Flinterman, M. (2025). Gerenciando a segurança na complexidade: Tornando o 'trabalho seguro' possível entre sistemas que falam códigos diferentes. Amazon

Digital Services LLC - KDP.

Vaughan, D. (1996). The Challenger launch decision: Risky technology, culture, and deviance at NASA. University of Chicago Press.


Victor Nazareth possui Mestrado em Fatores Humanos e Sistemas de Segurança pela Lund University (Suécia), MBA em Gestão de Pessoas e Liderança pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), especialização em Engenharia de Petróleo pela Universidade Petrobras e graduação em Engenharia Civil pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

Conta com mais de 25 anos de experiência operacional e gerencial na área offshore da indústria de óleo e gás. Atua como professor convidado na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS), além de palestrante, escritor, tradutor e investigador de acidentes. 

Foi premiado pela Society of Petroleum Engineers (SPE) pelas contribuições à indústria em nível Brasil (2023) e América Latina (2024). Nas horas vagas, é ultramaratonista aquático, praticando natação desde os 4 anos de idade.

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