Falha é Humano? Por Victor Nazareth
Quero falar de uma coisa
Adivinha onde ela anda
Deve estar dentro do peito
Ou caminha pelo ar
Pode estar aqui do lado
Bem mais perto que pensamos
A folha da juventude
É o nome certo desse amor
(Milton Nascimento, “Coração de Estudante”)
Essa música remete a minha própria juventude. Lançada em 1983, foi
amplamente veiculada durante o período de redemocratização do Brasil, entre os
anos 1979 e 1986. Sim, história e contexto importam (Snook, 2000). Nesse espírito
contextual, é importante refletir sobre um termo que, apesar de usual, traz mais
prejuízo que benefício (Wildavsky, 1988) – infelizmente há vários.
Falha humana é essa expressão usual, que deve estar dentro do peito ou caminha
pelo ar. Notadamente em relatórios sobre acidentes e qualquer cenário no qual os
humanos obtiveram resultados aquém do esperado. Como será que tal expressão
faz sentido (ou não)?
Primeiro, o que é uma falha? Podemos dizer que ocorre quando um equipamento
para de executar a função para a qual foi concebido, antes do previsto
temporalmente ou ciclicamente. Portanto, falha é um julgamento retrospectivo,
quando já sabemos o que ocorreu. Trata-se de um conceito mecanicista.
Segundo, o que é um erro? É o resultado distinto da expectativa, portanto
retrospectivo, da agência humana. Em todos os níveis organizacionais – e não
apenas na execução – ações são conduzidas reconciliando risco, incerteza,
ambiguidade e surpresas: a complexidade. Em resumo, o erro é uma tentativa de
obter sucesso.
Terceiro, compreender tal distinção é fundamental. Falhas são associadas ao
resultado da confiabilidade. Por sua vez, erros conectam-se ao esforço social para
gerenciar a complexidade (Rochlin, 1999), atendendo ao esperado na maior parte
das vezes (Hollnagel, 2014). Em uma realidade na qual os equipamentos são cada
vez mais confiáveis e os negócios cada vez mais complexos, é natural que os erros
humanos ganhem destaque (Woods, 2010).
E quando misturamos “alhos com bugalhos”: falha e humanos? Em um
ambiente que percebe o mundo como uma máquina, vale a máxima “se a única
ferramenta é um martelo, tudo é prego. E cabeça de prego que se destaca leva
martelada”. Isso é paradoxal: a adaptabilidade contribui para lidar com a
complexidade de forma criativa em vez de apenas normativa.
Em tal cenário, o ser humano passa a ser tratado como um equipamento, como
se fosse a parte confiável, quando a condição humana é prover adaptação
(Reason, 2008) – a essência da operação complexa. Sistemas complexos, como
nosso organismo, sobrevivem por conta da adaptabilidade e não apesar dela. A
circulação colateral do coração é ótimo exemplo orgânico.
Afinal, organismos e organizações são vivos! Tentam sobreviver em ambientes
dinâmicos, mutáveis, sujeitos a todo tipo de demanda por ajustes (Rasmussen,
1990). Ao incentivarmos no humano a busca pela confiabilidade devemos
biblicamente nos questionar: por que buscamos entre os mortos aquilo que está
vivo (Lc 24,5-7)?
Muitas organizações “morreram” ao “matarem” a expertise adaptativa. São
apenas lembranças, que servem para alertar: adapte-se ou morra. Isso dói? Sugiro
pegar um lenço antes de prosseguir na gestão da complexidade: o
desenvolvimento requer sofrimento. Como atleta, levo isso a sério: desconheço
conforto no esporte.
Há que se cuidar da linguagem em uso, “para que a vida nos dê flor e fruto”. Quer
um resultado humano? Torne ambiente, processo e condições igualmente
humanos (AckoƯ, 1998). As práticas organizacionais são reflexos do poder
(Perrow, 1999).
Que os escritos de Deming (1982) nos inspirem a “eliminar tudo aquilo que tira a
dignidade das pessoas em fazerem o trabalho.” Tratá-las como máquinas, além
de indigno, esvazia o elixir da humanidade: a adaptabilidade, gerando
vulnerabilidade organizacional.
Dito isso: como podemos ressignificar os erros humanos?
(*) Escrito com inteligência 100% natural. Se muita ou pouca, é outra história.
Referências:
AckoƯ, R. L. (1998). AckoƯ's best: His classic writings on management. John Wiley
& Sons.
Deming, W. E. (1982). Out of the Crisis. The MIT press.
Hollnagel, E. (2014). Safety-I and safety-II: the past and future of safety
management. CRC press.
Perrow, C. (1999). Normal accidents: Living with high-risk technologies. Princeton
University Press.
Rasmussen, J. (1990). The role of error in organizing behaviour. Ergonomics, 33(10-
11), 1185-1199. https://doi.org/10.1136/qhc.12.5.377
Reason, J. T. (2008). The human contribution: unsafe acts, accidents and heroic
recoveries. Ashgate Publishing, Ltd.
Rochlin, G. I. (1999). Safe operation as a social construct. Ergonomics, 42(11),
1549-1560. https://doi.org/10.1080/001401399184884
Snook, S. A. (2000). Friendly fire: The accidental shootdown of US Black Hawks
over northern Iraq. Princeton University Press.
Wildavsky, A. B. (1988). Searching for safety. Transaction Publishers.
Woods, D. D., Dekker, S., Cook, R., Johannesen, L. & Sarter, N. (2010). Behind
Human Error. CRC Press.

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